quinta-feira, 6 de novembro de 2008

As três lágrimas


Se eu pudesse esquecê
Aquela noite de São João
Era bem bão; mas quá, não vê?
Era a moça mais bonita
Com seu vestido de chita
Todo enfeitado de fita
Dessa noite no sertão

No vorteá do sapateado
Foi que nóis se conhecemo,
Nossos óios se encontraram
Nossos óios se gostaram
E nóis também se gostemo

No gemê da viola
Essa dô que nos consola
Eu lhe fiz a declaração
E como quem pede esmola
Os meus óios mendigavam
Um oiá dos óios seus

Quando a esmola chegou
Chi, meu Deus,
eu não sei o que senti,
Não sei mêmo, prá que menti
Eu não sei o que era aquilo
Senti um nó nos gorgomilo,
Uma vontade de chorá,
Eu inda quis segurá,
Mas quá, tudo cansa,
Os meus óios se orvaiou
E uma lágrima rolou
Purque eu tinha esperança

Um ano mais se passou
Quando foi no outro São João
Era a noiva mais bunita
Com seu vestido de chita
Todo enfeitado de fita
Que pisou na povoação.

Quando saímo da igreja
Todo mundo tinha inveja
Da nossa felicidade.
Eu tava tão satisfeito, tão satisfeito
Parecia que o meu peito
Queria arrebentá.

Eu até nem sei expricá.
Eu não sei como foi aquilo,
Senti um nó nos gorgomilo,
Uma vontade de chorá.
Mais quá, quem diz,
Os meus óios se orvaiou
E uma lágrima rolou
Prá mode eu sê tão feliz

Quando foi no outro São João,
Quatro vela ainda acesa
Lá na mesa,
Alumiava o seu caixão.

Ainda tava mais bunita
Com seu vestido de chita,
Todo enfeitado de fita
E um ramo de frô na mão
Meus óios tavam seco
Que nem roça de coivara
Na hora dela parti;

Eu não queria que ela fosse assim
Sem se despedi de mim.
Garrei na cabeça dela
E como um louco beijei
Beijei a sua face amarela.
Quando larguei, meu Deus
As minhas lágrimas
Inundou os óio dela

Quando ela partiu,
Eu já não sabia chorá,
O resto das minha lágrima
Eu dei prá ela levá
E agora, ás veis, de tardinha
Eu garro de cismá, de cismá,
De repente, sem querê,Não sei pruquê,
Me dá uma vontade de chorá,
Mas quá, quem há de,
Os meus óios secõ
Na dô desta sôdade

(Autor desconhecido)

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